Corto Maltese: o estilo masculino que vem do mar

Houve tempos em que a terra tinhas mistérios guardados. Costas inexploradas montanhas inalcançadas, florestas e tribos nativas ainda não nomeadas. Tempos em que reinados transcontinentais começaram a ruir, notícias de guerra e revoluções monumentais demoravam a chegar aos ouvidos dos povos.

Há pouco mais de um século ainda era possível um homem sumir no mundo cercado pelas brumas de sua herança e melancolia.

Nesse mundo viveu Corto Maltese um pirata, um navegante, um viajante desesperançado. Nascido em Malta em 1887, neto de bruxa, filho de marinheiro inglês e mãe cigana espanhola, foi educado em escolas judaicas, aprendeu segredos da cabala e do zohar.

Desde os sete anos já estava rasgando os mares, aos 13 anos já estava no oriente e começou a longa lista de guerra e revoltas que testemunhou e participou: da revolta do boxers, da guerra russo-japonesa, revolução russa, a grande guerra mundial.

Corto conheceu muitos personagens notáveis: Joseph Conrad, Jack London, Rasputin, Stalin, Butch Cassidy e Sundance Kid, James Joyce, Barão Vermelho e vários outros.

Esteve nos quatro cantos do mundo: Inglaterra, Austrália, Rússia, China, Japão, Brasil, Irlanda, Etiópia, Mônaco, Itália, incontáveis terras e cidades.

Singrou o mundo entregue às possibilidades da vida: lutou, comerciou, salvou pessoas, matou algumas, testemunhou as engrenagens da história se moverem. Tudo isso com um estilo único, imediatamente identificável com marcas pessoais próprias como o brinco de argola, seu quepe branco, costeletas enormes e um casaco de marinheiro invejável.

Seu estilo carrega a marca do mundo como possibilidade. Possibilidade de ações, escolhas, de observar um mundo com as fronteiras abertas.

A criação genial do italiano Hugo Pratt é mais humana, mais real, mais interessante que nós. Corto viveu mais que eu e você juntos, temos muito a aprender com ele e entre seus ensinamentos temos a forma como ele se portava com o que vestia.

Corto evoca um tempo em que o homem adulto tinha pra si que elaborar e cuidar daquilo que vestia era parte integrante do seu dia, de sua identidade, da socialização com seus semelhantes e diferentes.

No estilo de Corto observamos como o militarismo é fundador da moda masculina, boa parte daquilo que você tem no seu armário tem origem de criação e uso nos campos de batalha – a outra parte é herdeira das roupas feitas para trabalho pesado e um pequena fatia foi criada para o conforto e lazer.

As cores preferidas de Corto são o azul marinho – cor símbolo do homem do mar, cor que gera confiança – o branco e alguns detalhes de vermelho. Não podemos esquecer que seus acessórios metálicos virão no dourado que combina muito com sua pele bronzeada.

Para se inspirar e tentar incorporar um pouco de Corto no seu armário e dar vazão ao oceano no seu vestir dê uma chance as camisetas e camisas listradas (dê preferência as listras finas), ao sapato dockside, a calças brancas e acessórios de tons dourados.

Ah! Fica aqui uma curiosidade, em 2001 Corto foi garoto propaganda da Dior em sua linha de perfume masculino eau sauvage

Lux Interior: Vestindo para agredir

Um amor de outras vidas
As bens comportadas

Nasceu Erick Lee Purkhiser em Ohio, EUA no ano de 1946. Mas isso não durou para sempre, poucos anos depois esse rapaz iria andar pelo lado selvagem da vida. Mas sua história está ligada fortemente com a de sua parceira, Kristy Marlana Wallace, futura Poison Ivy.

Um amor flamejante

Essa é a maior história de amor do rock, difícil conceber um casal mais legal que Lux Interior e Poison Ivy. Eram meio hipongas quando se conheceram e a história dos dois nasceu de uma carona quando eram estudantes de arte na universidade de Sacramento e frequentavam aulas de xamanismo.

Não me quis assim…

Como disse em entrevista, Ivy se encantou por Lux por conta de seu estilo, digamos diferente e chamativo. É de se imaginar que as paixões por cinema b, Eddie Cochran, fetiche por pés, serial killers e substâncias proibidas os uniram. Nunca se casaram, mas como Ivy declarou nos anos 90, estiveram sempre apaixonados, provavelmente de outras vidas.

A música do Cramps tinha tudo para impressionar, tudo a oferecer: filmes de terror e carros antigos, rockabilly, agressividade real, loucura e liberdade sexual. The Cramps fazia o mundo ser mais interessante e sedento. É difícil não abrir um sorriso quando se avista uma pessoa usando uma camiseta dessa banda. 

Um maluco no palco

A loucura e agressividade de Lux no palco eram de uma verdade sem concessões, sem estratégias de marketing, era primal e feroz. Ele deu o rock aos esquisitões. Que ser adorável. 

Lux vestia para agredir as definições de masculinidade. Seus saltos agulha furavam os medrosos; suas roupas de látex sufocavam os sem criatividade; mesmo com costume, sapatos e camisa preta eram capazes de acordar os mortos.

As fronteiras dos gêneros

Um elemento curioso de sua expressividade no vestir está na escolha de certas peças como o salto alto. Esse calçado já foi um peça proeminentemente masculina. Os reis franceses do século XVII e XVIII difundiram o uso da peça por toda nobreza ocidental. 

Se tem banda melhor eu nunca ouvi

Outro elemento usado por Lux que também era sinônimo de masculinidade nessa mesma época era a maquiagem. Homens pertencentes a camadas nobres usavam a maquiagem também como um elemento de diferenciação das camadas que sujavam o rosto em trabalho subalternos.

Esses costume foram abandonados com a severidade inglesa que ditou os rumos da moda masculina até bem pouco tempo. Assim, o salto e a maquiagem se tornaram eminentemente “femininos”, impensável ver um homem hétero usando a peça e o adereço com naturalidade.

The Cramps prontos pra entrar em ação

No entanto, o vestir é um ato que carrega em si muitas intenções. Dentre elas, expressar a loucura, a fúria. Eis que Lux Interior chega, absolutamente ameaçador. Um vampiro, um homicida, um serial killer de filme. Um homem enorme que poderia te matar. Hétero, escravo sexual de sua mulher, e de salto alto. Novamente, algumas barreiras de comportamento e de expressão se despedaçam. 

Vida Longa a luz interior.

*Esse texto foi escrito a quatro mãos em parceria com a Consultora de Estilo/Imagem Bárbara Lyra, mais do trabalho luminoso dela você encontra no instagram em @barbara.lyra

Estilo masculino e o que usamos: o tecido de algodão

Uma amostra de algodão peruano puro

É raro pensarmos em algo tão corriqueiro como os tecidos que usamos. Isso é um tanto contraditório já que isso faz parte de objetos que revestem nosso corpo por quase a totalidade do dia. Com meus clientes de camisaria apresento várias opções de tecidos, mas sem dúvida o mais escolhido é o algodão.

Sempre me perguntam da questão dos fios: algodão 120 fios é melhor que de 80 fios? Por quê? Bem, essa questão do fios diz respeito a quantidade de fios por polegada quadrada e no geral quanto mais fios mais nobre o tecido pois ele será composto por fibras mais finas e assim mais macias ao toque. Mas há um porém nessa história, os tecidos com mais fios amassam com muita facilidade. Assim, o ideal é ter camisas de mais fios para ocasiões especiais e os de contagem menor de fios é mais adequado para o uso diário.

Vamos agora a algumas informações sobre esse tecido.


As origens exatas do tecido de algodão são ainda desconhecidas, mas já há vestígios de tecidos feitos com esse material que datam de sete mil anos. Há registros em sânscrito do século III a.c. já documentando a produção do tecido na Índia. Alexandre Magno ajudou a espalhar o uso da fibra no mundo helênico após suas incursões asiáticas. O incas chegavam a produzir indumentárias protetivas de trançados de algodão capazes de absorver golpes por redistribuir a energia do golpe através de suas fibras. O algodão moveu várias engrenagens do mundo: foi uma das principais atividades da indústria no começo da revolução industrial, a primeira máquina a vapor que iniciou a revolução foi desenvolvida para fiação do algodão e consequente produção do tecido que iriam cobrir o corpos pelo mundo. Sem o algodão não teríamos a música negra estadunidense que começou com os cânticos dos escravos nos campos de colheita no sul do país.

Maquinário de tecelagem no começo do século XX

A fibra do algodão é formada por uma única célula que cresce com várias camadas e por volta de duas semanas de desenvolvimento a celulose começa a atuar como importante componente no fortalecimento da fibra. A capacidade de suas roupas resistirem por anos e anos e após várias lavagens e ainda estarem em boas condições se encontra nesse fortalecimento na produção do algodão cheio de celulose que por fim se torna um tecido de melhor qualidade. Em condições ideais de temperatura, solo ideal e colheita bem feita, após 50 dias de crescimento das fibras o material orgânico interno estará “morto” restando apenas a celulose, uma fibra pode crescer até 3,6 cm de comprimento. Quanto mais longa a fibra mais saudável e forte fica o tramado feito com as fibras, dando maior nobreza aos tecidos.

Atualmente o maior produtor mundial é a Índia, porém o Peru tem se destacado com os melhores tecidos de algodão nos últimos anos, mas o Egito continua também entre os melhores produtores junto com os Estados Unidos. O Algodão é usado não só em tecidos, está até nas notas de moedas correntes pelo mundo todo. O seu descarte ainda que cause algum impacto por ser um material orgânico tem o tempo médio de decomposição de três meses no meio ambiente, o que é infinitamente menor que o dos tecidos sintéticos.

Vale a pena conhecer um pouco da cadeia de produção daquilo que consumimos, isso ajuda a nos decidir. Deixo um vídeo sobre a produção brasileira de algodão.

O estilo masculino da série Au Service de la France / A Very Secret Service

Obras de arte podem nos auxiliar a solucionar questões factuais em nossas vidas como é o caso do vestir para trabalhar.

Se você trabalha em um local ou ramo de atuação com um código fechado/restrito de vestimenta, mas gostaria de se destacar sem ousar demais tem uma forma de ver isso aplicado na prática. Os figurinos de filmes e séries são uma forma exemplar na busca de inspiração para dar aquela elevada na hora de combinar a velha combinação calça / camisa / paletó / gravata.

A minha indicação vai para série francesa Au Service de la France / A Very Secret Service que está disponível no Netflix. A série trata com muito humor e ironia sobre o serviço secreto francês durante o ápice da Guerra Fria nos anos 60. E no formado de sitcom de 20 minutos por capítulo somos levados às aventuras de André Merlaux que acaba de entra para o serviço secreto e quer se provar digno de defender a França e o capitalismo.

Numa mistura entre The Office, Mad Men, filmes do James Bond na fase Connery e os filmes de espionagem do Alain Delon temos essa série que nos faz rir e pensar nos absurdos do colonialismo, do machismo e da burocracia burra. Tudo isso regado a uma trama interessante que leva alguns capítulo para engrenar mas que desperta a curiosidade. Minha crítica é que menos capítulos dariam mais agilidade.

E no quesito figurino ai está a nossa fonte de inspiração – nosso protagonista tem como interesse amoroso uma linda garota parisiense que costura seus costumes de trabalho. Como a série deixa claro de começo mesmo espiões tem por maior parte do tempo que se preocupar com trabalho enfadonho de escritório e passam a maior parte do seus dias em suas mesas. Assim suas roupas cumprem o papel de uniformização, mas cada personagem carrega suas características próprias. E de tudo a grande lição é o caimento, mesmo os personagens mais gordinhos ou mais magrinhos usam costumes de caimento perfeito para seus biotipos, nada falta e nada sobra.

Vemos na série a apresentação de combinações inspiradas:

  • como usar polo ou suéter com paletó;
  • como usar calça de uma cor e blazer de outra e ainda encontrar harmonia (a forma proposta é usando calça escura com a parte de cima cinza clara para dar um contraste marcante );
  • vemos os personagens usarem costumes claros e de linho no calor;
  • usarem várias cores de costumes dos clássicos cinza e azul marinho até os verde e azuis mais claro (uma forma de você usar cor sem querer chamar atenção é só optar por tons foscos, fuga dos acetinados e isso vale pras gravatas também);
  • se um, dois, três ou quatro botões o correto é o blazer ter um bom caimento no seu corpo, adicionar onde falta e tirar o que sobra, o balanceamento faz acontecer o milagre da elegância;
  • os acessório podem fazer toda a diferença num mundo de engravatados sem graça (lenços, anéis, gravatas com geometrias bonitas qualquer elemento que aumente o fator de interesse de sua veste pode elevar o status e acrescentar a sua personalidade.

A lição que fica é: que seja trabalhar arduamente na burocracia ou impedindo uma nova guerra mundial, se for possível fazê-lo na sua versão mais elegante, faça.

Jean-Michel Basquiat: a moda masculina primitivista

Um homem que se veste apropriadamente para o trabalho

Como os grandes que queimam rápida e furiosamente Basquiat deixou sua marca em várias áreas do fazer humano, isso inclui a moda. Viveu nas ruas, atuou nas ruas, usou material e temas das ruas em sua arte. Um homem que deu uma volta pelo lado selvagem. Nascido em Nova York em 1960, do encontro de Porto-Rico com o Haiti, pai e mãe. Sua mãe foi a grande influenciadora no seu gosto pelas artes plásticas e seu pai foi seu grande incentivador musical. Aos 17 foi pra rua grafitar e criou sua primeira assinatura SAMO.

Montou uma banda no furacão do movimento punk novaiorquino, era brother da galera da banda Blondie – apareceu até no clipe Rapture. Sua arte começou a ser cada vez mais aceita nos circuitos alternativos das artes e mês após mês suas obras ganhavam as paredes das galerias. Finalmente ele adentrou ao circuíto da vanguarda de uma cidade pulsante, suja e perigosa; cidade que hoje é só um eco na cidade acética e bilionária que reconhecemos em Manhattan. Soube aproveitar as oportunidades e virou figura cultuada em vida. Colaborou vividamente com o Andy Warhol e namorou a Madonna antes de ela ser A Madonna. Morreu de overdose de cocaína e heroína com a perigosa idade de 27 anos, nesse meio tempo foi um catalizador de todas as referências que apareciam em sua frente expressando furiosamente em seus desenhos.

O que ele veste,

Em vida, Basquiat embarcou no mundo da moda, foi modelo de passarela para marca Comme des Garçons em 87 com um terno cinza e camisa branca. Também apareceu em algumas capas de revista, sempre transmitindo sua figura marcante através de suas combinações inventivas e originais.

Se podemos apontar um “uniforme”, um traje característico do nosso personagem, este seria o terno Armani. Usava em qualquer ocasião: na rua, pintando, fotografando. Mas não ficou restrito a ele, assim como sua arte que era exercida em qualquer superfície seu expressar vestuário se aplicava em uma variedade de peças e cores.

Dá pra enxergar muito do Basquiat na moda atual, gente como Donald Glover está ai fazendo sua releitura de Basquiat da roupa ao cabelo. Muita gente do rap segue essa linha e por consequência a galera que os segue acaba adotando o estilo mesmo sem saber. Arrisco a dizer que muito do que se classificou como normcore o Basquiat já fazia muito antes do Seinfeld, mas fazia de forma muito mais interessante.

Pra quem é fã de roupa mais solta no corpo está aqui uma inspiração que demonstra como fazê-lo sem parecer que se está vestindo com um completo desmazelo, mas antes está atestando uma intenção genuína de estilo aplicado ao conforto. Quanto às cores uma inspiração direta seria optar por cores gastas, texturas batidas que demonstrem que você sobreviveu às furiosas marés do asfalto e está conectado à decadência das grandes metrópoles.

Três casamentos e um consultor

Antes mesmo de me educar na técnica da consultoria de estilo eu já vinha atuando como consultor, mais especificamente como consultor de estilo de noivos. No meu ateliê, tive oportunidade de atender alguns noivos que me procuraram para dar forma às suas ideias. Eles me procuraram pois a proposta de seus casamentos era bem fora do comum e não acharam lugar em que pudessem realizar seus projetos. Todos eles acabaram por me pedir aconselhamento para compor o visual completo deles, para chegar a minha proposta sempre estudei cada caso com muito cuidado.

Querendo ou não a festa de casamento envolve muito a imaginação, é a tentativa de realização de um sonho. Para aqueles que sonham com o evento a execução é muito importante e a roupa é um quesito essencial. Se pela indústria do casamento, se pelo machismo secular ou se por puro desleixo não tenho como afirmar, mas boa parte dos rapazes podem se sentir alijados dessas decisões, deixando de lado e escolhendo qualquer peça, o que for mais fácil. Abrindo mão de um profissional que poderia guiá-lo, ajudá-lo com decisões que não toma normalmente. Decisões essas que podem ficar marcadas em sua memória para o resto de sua vida.

Não raro, os noivo se permitem atuar como um mero objeto decorativo, não se importando com o que vestem deixando as decisões a cargo de sua noiva ou até da própria mãe. Mesmo que de forma desajeitada quando o rapaz ao menos busca uma identidade visual para seu dia do sim é de se elogiar.

Quero compartilhar aqui alguns casos reais em que trabalhei diretamente com esses homens que estavam em busca de orientação, queriam demonstrar seu amor por suas noivas e até por seus convidados com suas vestes, mostrando que se importam, e muito, com aquele momento. Quiseram deixar sua marca nesse dia único em suas vidas e ter sido de alguma forma parte desse processo me deixou sobremaneira feliz.


O Noivo do Balão – o primeiro noivo a gente nunca esquece. Fabiano queria uma camisa branca da melhor qualidade, mas com um caimento moderno e com personalidade. Já tinha comprado um terno cinza e uma calça preta, propus uma camisa com tecido branco com textura quadriculada para compor com a textura do blazer, com um colarinho arredondado de estilo inglês – club collar – e com uma finalização com botão dourado no colarinho.

O caimento

A dica de caimento que realizei em sua camisa foi a sobra de um ou dois dedos na relação manga da camisa / manga do blazer; assim como na relação colarinho da camisa com a a lapela do blazer. Nosso noivo ficou muito feliz com o resultado, assim como eu fiquei. E para minha surpresa, quando perguntei o local da cerimônia ele me revelou que a troca das alianças seria no alto, no cesto de um balão, achei uma ousadia muito interessante de ser realizada por uma pessoa tão calma como era esse cliente.


O Noivo da bermuda – Raul era colega do noivo do balão e chegou com suas tatuagens e uma certeza: queria casar de bermuda. Seria possível expressar seu estilo usando bermuda e manga curta e conseguir um bom resultado de estilo com essa combinação? Esse era o desafio posto. Ele já havia estabelecido que não arriscaria em cores, queria preto e brando, e só. Suas referências estéticas estavam seguras no mundo do rock e do skate.

A proposta

Assim, a proposta foi, trabalhar com texturas: linho puro na bermuda (que iria ajudá-lo, inclusive, com sua agonia de passar calor) e um algodão puro de tramado bem aberto na manga curta. Outro conselho que o Raul acatou com entusiasmo foi fazer um bordado no peito da camisa, como ele não usava nenhum tipo de acessório e queria deixar a peça mais marcante sugeri um coroa de louros para contrapor ao buquê que sua respectiva noiva usaria no dia do enlace. Papo vai, papo vêm ele confidencia que faria uma surpresa para noiva cantando no altar. Recebi as fotos da cerimônia um par de meses depois, ele de violão na mão e a noiva com lágrimas nos olhos, fiquei bem curioso em saber qual foi a faixa escolhida.


O Noivo das cores terrosas – esse foi um dos maiores desafios de minha carreira na alfaiataria e na consultoria. João conheceu nosso trabalho por indicação estava cheio de dúvida e com apenas uma certeza: queira uma cartela de cores foscas, terrosas, que remetessem ao passar do tempo à terras longínquas. O tempo era muito apertado, trabalhamos com algumas referências que achamos na internet. Ele queria alguma peça que fosse marcante, inédita.

A execução

Assim produzi um colete que poderia ser usado dupla face: uma com um tecido estampado africano congolês e a outra de brim ocre, meio tijolo. Além disso fiz uma camisa de linho puro de alta qualidade, gola padre e botões de madeira. Vencida qualquer insegurança que ele tinha com muito diálogo, vi a satisfação real em sua fase quando ele vestiu o traje completo no meu ateliê. Meses depois João compartilhou as fotos, todos animadíssimos e o colete fazendo muito sucesso na pista de dança, pena que ele tirou poucas fotos da cerimônia.

O Relato de minha primeira experiência como consultor de estilo masculino

Acho que eu não teria como ser mais sortudo por ter uma primeira experiência de consultor de estilo masculino tão rica e cheia de simpatia. Meu primeiro cliente foi o Eduardo Mendes, apelidado Duds. Um profissional em ascensão que buscou a consultoria com o objetivo de formar com mais concretude seu estilo pessoal, buscando incorporar as influencias de sua ancestralidade africana, refletindo a alegria e o colorido de sua personalidade.

Já na primeira fase da consultoria – a investigação – pude tomar conhecimento da preferências estéticas do Duds, as buscas pessoais e profissionais e fiquei a par até de sua rotina e como as roupas que ele vestia influenciavam no seu comportamento. Outro fator muito importante que levou o Duds a buscar o serviço foi a intenção de racionalizar as suas compras: aumentar o numero de composições e como coordenar as pecas que ele já tinha para gastar menos e melhor. Uma das ações que tomamos foi separar para doação várias camisetas com estampas muito infantis que limitavam as combinações. O Duds começou a fazer apresentações no trabalho e, por mais legal que seja uma camiseta com estampa do Pantera Negra, por exemplo, acaba por tirar a atenção de quem está assistindo a apresentação da atração principal, o Duds. Assim, com peças mais neutras conseguimos combinar mais peças.

Após isso me debrucei sobre a fase que mais me instiga no processo da consultoria: a proposta de estilo. De posse das informações obtidas na fase de investigação me concentro na análise de rosto, corpo e personalidade do cliente e proponho uma cartela de cores, um quadro de inspirações que justifique a nova orientação estética que iremos perseguir e uma lista de compras que complementem o seu acervo de roupas. Esse é um momento em que o profissional de estilo fica um tanto tenso, queremos traduzir em um documento nossa proposta de imagem para esse cliente, pensamos com carinho em como essas roupas e combinações poderão impactar seu dia a dia e como poderemos exercer uma influência efetiva em sua vida.

Tive sinal verde do Duds, sucesso! Agora é a hora das compras. Faco uma lista, pesquiso nas lojas físicas e online e marco a data com o Duds para fazermos a peregrinação pelas lojas, momento em que poderei mostrar na prática as técnicas de combinação, mostrar as melhores opções de caimento, mostrar as texturas e cores. Esse contato direto e um exercício riquíssimo, o cliente vê efetivamente todas opções que foram colocadas na propostas e também se coloca de forma ativa no processo.

Por ultimo tivemos o momento de montagem de visuais. Na casa do Duds fizemos muitas combinações e registramos esses visuais para que sejam um guia futuro que oriente o Duds em suas decisões de estilo.

Em toda essa atuação fui muito afortunado de ter o Duds como cliente, um homem de coragem, aberto ao diálogo e de personalidade marcante. O consultor de estilo acaba entrando no armário e provoca reflexões e promove a autoestima do cliente e quando esse abraça o processo de forma tao entusiasmada nosso trabalho é muito gratificante.

Talvez, a palavra que melhor oriente a atuação de um consultor seja compreensão que nasce do diálogo constante e aberto entre as partes envolvidas na consultoria. Entender verdadeiramente as demandas de seu cliente e buscar as opções mais adequadas disponíveis no mercado tendo como norte a solução real dos problemas apresentados pelo seu consultado.

Cab Calloway: trazendo o estilo das ruas para os palcos


Figurino de Cab no filme: Stormy Weather de1943

A música negra sempre se fez representante das ruas, na forma e na mensagem. Isso se aplica a maneira como os artistas se vestem/vestiam. As roupas carregam os códigos das comunidades desses artistas, são também uma ferramenta de divulgação de suas origem e símbolo de orgulho. Nesse contexto a figura de Cab Calloway é uma das grandes e primeiras influências de todo esse movimento: artistas com James Brown e Michael Jackson, além de vários cantores de soul e rap surgiram nas trilhas abertas por esse artista único.

O homem em ação

Não somente, foi um percursor do artista que domina o palco com a voz, os movimentos e domina a interação com a plateia, isso virou influência até para heróis da música como Fredy Mercury.

Cab nasceu Cabell Calloway III em 1907 em Nova York. Seus pais queriam que ele fosse advogado, mas para o desgosto deles seguiu com sua irmã pelo caminho dos shows das big bands de jazz.
Uma influência enorme na sua forma de se apresentar como showman veio de sua irmã mais velha que já se apresentava pelos palcos de jazz.

 
Dominou as paradas de sucesso no anos 30 e 40, foi o primeiro artista negro a vender mais de um milhão de cópias de um único single, teve programa de rádio em rede nacional e estrelou vários filmes. Como os artistas da música negra atual que se envolvem em várias plataformas, Cab fez o mesmo muito antes. Virou até desenho animado de forma revolucionária.

Acabou “sumindo” das paradas nos anos 50, mas nos anos 80 foi homenageado pela dupla Dan Arkoyd e John Belushi no filme Blues Brothers.

Calloway foi influência direta para os artistas negros norte-americanos que assumiram as vozes e as roupas das ruas trazendo entretenimento e excitação para o grande público como fez Cab.


O que ele veste

De maneira geral, temos duas linhas em suas vestes: o fraque de maestro, e o zoot suit. O zoot suit já foi vestimenta das ruas dos Estados Unidos.

Callaway usou as veste de uma tribo urbana conhecida como os Zoots. Os Zoots afrontavam a sociedade americana dos anos 40 por serem em sua grande maioria formados por rapazes negros e latinos e por usarem abundância de panos numa época em que o comedimento era a regra dado que o país se mobilizava nos esforços de guerra. Esses grupos étnicos sempre marginalizados e perseguidos se afirmavam através das vestes. E os artistas não ficavam indiferentes. 

Caracteristicas de afronta e exageros das roupas dos rappers já são vistas desde a época de Calloway. Já vemos calças largonas, a enorme corrente de carteira que foi relida a partir dos anos 80 com as enormes correntes bling por artistas como Run-DMC e Flavor Flav.

Tudo tem origem, no geral mais antiga que conseguimos avistar. Da próxima vez que você quiser se inspirar nos rappers saiba que, mesmo que eles mesmo não saibam, eles carregam o legado do grande e sorridente Cab Calloway.

Justin Theroux: um homem que domina seu próprio estilo


Bicicleteiro e um gosto impecável para camisetas
Sobre suas decisões de estilo

Nascido em 1971 na capital dos EUA, envolto numa família de escritores, se envolveu com a indústria cinematográfica desde a década de 90 atuando em filmes pratas da casa como Cidades dos Sonhos e Psicopata Americano e As Panteras Detonando, além de produzir e escrever várias outras obras.

Tanto no formal quanto no casual o caimento é impecável

Estrelou uma das melhores séries de todos os tempos, recomendo fortemente que você não durma essa noite e faça uma maratona de The Leftovers. E não bastasse tudo isso o cara está sempre nas lista dos mais bem vestidos, há o que se aprender da distinção do senhor Theroux e aplicar em nosso vestir.


O que ele veste

A predominância de cores escuras e peças atemporais

Sem dúvida a característica que mais salta aos olhos ao analisar seu estilo é o caimento de suas roupas: não tem pano sobrando, isso acentual a verticalidade de sua figura. Figura essa que sempre transparece severidade, seja usando jeans e camiseta, seja usando terno completo. Não raro vemos Justin vestido todo de preto variando textura e camada, mas sempre com a severidade de quem arquitetou sua imagem. Tem também a sua obsessão por botas, pode reparar.


A importância fundamental do caimento

Muitos podem considerar muito justo o estilo do Justin Theroux, mas o conselho aqui é que você adapte e tome como medida cuidar do caimento de suas roupas. Roupas ajustadas passam a sensação de cuidado e elegância. Faça a barra de suas calças (ou dobre para dar um bom acabamento), experimente o ajuste correto de linha dos ombros e braços sem encanar com seu corpo. Caimento não é tudo mas é 100%.

Justin e Jonathan, tattoos de cachorros, que dupla!


Jorge Ben Jor: a simpatia no vestir


Não consigo conceber uma imagem mais adequada e estilosa para começar essa postagem

Como ser o cara mais estileira do mundo usando camiseta de time? Aqui a resposta

Jorge Duílio Lima Meneses nasceu no Rio de Janeiro em 1945, filho de mãe etíope — os sons africanos e do médio oriente ecoam por sua música — e pai com ascendência austríaca. Já foi seminarista, despachante e, além de tudo, um literato inveterado.

O maior alquimista da música brasileira tomou de assalto o cenário da MPB popularizando a união do samba com o rock, sambalanço; ele foi do violão para a guitarra e para o violão novamente para cantar sobre chuva, mulheres gostosas e príncipes persas e quilombos resistentes.

O Jorge Ben Jor representa desde da minha infância a maior referência de brasilidade na música. Foi o primeiro artista que me ajudou a entender que nosso país tinha um som próprio, e esse som era único, alegre, vibrante e colorido.


O que ele veste

A fase final dos 60 e todo 70 e começo dos 80 é a mais marcante e criativa em termos de vestimenta do nosso Jorge da Capadócia. Ao mesmo tempo na estica e com pequenas ousadias soube portar camisas e jaquetas de golas enormes, com seus indefectíveis óculos de lentes escuras ou coloridas, calças e camisetas polo de caimento na medida, nem sobrando nem faltando. Como acessório por vezes um anel ou um colar fininho e sempre um bom sorriso pra animar a festa.

Só alegria com a companhia do Trio Mocotó

Como inspiração: uma gravata florida, sem dúvida. Adicionar toque de cor como um acessório que se destaque em meio ao branco, preto, cinza ou azul é a pedida. Além disso, uma bela camisa de viscose com estampa marcante ajuda a chamar o verão. Tecidos arejados adequados ao nosso clima e roupas com caimento mais solto vão animar a sua festa e salvar sua simpatia, fica a dica.


Para ouvir

Sem dúvida todo álbum A Tábua das Esmeraldas deve ser ouvido no mínimo anualmente em doses cavalares, é o melhor disco da história do nosso país? É possível.