O que aprendi lendo guias de estilo

Tenho estudado consultoria de moda e gostado muito. Após alguns anos trabalhando com alfaiataria e aconselhando meus clientes de camisaria como poderiam combinar sua nova camisa sob medida e em qual ocasião, percebi que fazia esse aconselhamento de forma instintiva e pouco embasada. Assim, decidi me matricular num curso de Consultoria de Imagem Pessoal, tinha conhecido algumas profissionais da área e senti uma admiração real pela profissão, principalmente pelo contato direto com o cliente, com a possibilidade de realizar algo que impactasse sua vida ou a forma como ele se percebe sua autoimagem. A grande beleza da analise e composição de estilo é a montagem do quebra cabeça que é cada personalidade: o que move, o que admira, o que pensa sobre si, o que quer parecer. Estar nesse processo com cada individuo é algo no mínimo encantador.

Para tanto, me debrucei em toda bibliografia que encontrei pela frente, assisti horas e horas de vídeos no youtube, segui todos os profissionais da área que pude encontrar e acompanhei seu trabalho assiduamente. Repertório se forma com tempo e com interesse. Aqui estou na eminência de me lançar numa nova empreitada com todas as apreensões e motivações de quem se apaixona por um fazer. Mas para além disso essas leituras aguçaram algumas constatações que vou compartilhar aqui e um dia pretendo destrinchar com mais detalhes.

O que aprendi de mais interessante, por mais óbvio que parecesse, é que se vestir com estilo é um ato de intenção. Pode-se pensar que os ditos ícones da moda masculina tenham algum dom mutante que os façam uma máquina de combinações acertadas, só que isso se deu no exercício de fazer ou você acha mesmo que o Steve McQueen era o rei do cool acordava daquele jeitão. Vestir-se bem tem várias interpretações, mas quase sempre nós sabemos reconhecer quem o faz.

Não posso deixar de pensar na concepção histórica desses manuais, isso me move pessoalmente pois minha primeira formação é como historiador, profissão que exerci por 12 anos. Aqui vão algumas notas que envolvem história da moda e história do estilo:


Os ingleses inventam, os italianos melhoram

A influência inglesa em todo armário masculino do XIX em diante é impressionante, mas os melhores aperfeiçoamentos foram dos italianos. Isso se deu com as inovações que foram gestadas principalmente na Savile Row (rua de moda predominantemente masculina em Londres,talvez o endereço mais importante da alfaiataria) onde eram usados materiais e modelagem originários da ilha da rainha, isso desde o século XVIII, basicamente. Os ingleses mais abastados iam passar seu veraneio na enseadas italiana, nesse intercâmbios os alfaiates italianos foram adaptando com tecido que vinham da Ásia e Africa, tirando algumas camadas de tecido e fazendo peças mais sequinhas e mais próprios a um clima mais quente. As casas de alfaiataria italiana também se mostraram extremamente influente. As canelas de fora dos rapazes que vemos atualmente por ai, culpa dos italianos.


Dos quartéis para as ruas

Quando se para pra pensar nas origens históricas da grande maioria das peças do vestuário masculino que usamos até hoje entendemos que elas tem origem militar, das gravatas às calças chino. Isso se refletiu também na própria padronização, é só olhar para os rapazes saindo para trabalhar com o mesmo tipo de traje: costume basicamente. E, como podemos imaginar, nos quartéis não havia qualquer possibilidade para experimentações. Isso tudo impactou o cotidiano dos homens, tal processo foi quebrado basicamente na geração anos 60 que abriu um caminho para liberdade no vestir. Essa rigidez militar acabou por emoldurar a forma como os rapazes se relacionam com o vestir: ou seguindo absolutamente a fórmulas estabelecidas ou tratando com desdém essas fórmulas se alienando de algo tão interessante e parte da expressão individual que é o vestir. É um embate do mundo atual: a estabilidade dos códigos militares antigos contra um mundo atual fluido. As últimas década viram a entrada da moda esportiva de maneira definitiva nos códigos da bos vestimenta masculina.

Já me estendi bastante, vou fazer uma segunda sobre esse manuais de moda masculina num próximo texto. Continuo me apaixonando e me aprofundando no assunto.

Publicado por Tiago Navarro

Meu nome é Tiago Navarro. Trabalho com vestuário masculino há quatro anos fazendo roupas sob medidas para profissionais, noivos e projetos especiais sempre buscando dar forma as ideias dos meus clientes. Comecei a desenvolver meu trabalho como consultor após perceber a demanda dos meus clientes homens que se sentiam desorientados na hora de combinar suas roupas para determinadas ocasiões. Alio meu trabalho de consultor com minhas outras formações: olho a moda com olhar de historiador, busco as origens e as funções que o vestir adquiriu com o tempo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: